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Historiador escreve livro sobre a maior produtora de garrafas há oito décadas
14 outubro 2022

Mais do que um livro sobre uma fábrica de garrafas, a obra do historiador Tiago Inácio, apresentada a 8 de outubro na Martingança, é mais uma prova de que o início do desenvolvimento industrial da Martingança e de Pataias se deveu, a par da produção de cal, à indústria do vidro.
Principal fornecedora das marcas Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas, a Fábrica da Estrela, na Martingança, foi, na década de 1940, a maior produtora de garrafas em Portugal. Era também a que detinha o maior número de máquinas semi automáticas, o que permitia responder com eficácia às exigências dos clientes.
O livro A Fábrica de Garrafas da Martingança - ‘Fábrica da Estrela’, história, memória e salvaguarda do património começou a ser desenhado há alguns anos, depois de Tiago Inácio ter visitado, em 2015, as instalações da fábrica e ter ficado fascinado com a preservação do edifício, que foi adaptado pela empresa de moldes Iberonorma sem mexer em qualquer dos traços originais, do tijolo às vigas de madeira da enorme estrutura, incluindo as galerias subterrâneas e as condutas de gasogénio. O historiador, que desenvolve investigação ao serviço da União de Freguesias de Pataias e Martingança, apresentou o exemplo de preservação de património industrial da antiga fábrica da Martingança-Gare num congresso, publicou as suas reflexões na revista Almadam, mas quis saber mais sobre a fábrica que deu origem ao edifício. O trabalho de Tiago Inácio, que já tinha publicado, em 2018, um livro sobre as indústrias vidreiras de Pataias, inclui uma exaustiva investigação junto de arquivos nacionais, regionais e locais, fontes documentais de empresas e das entrevistas com aqueles que ainda têm memórias da fábrica, como o nonagenário António Moleiro, que entrou para os escritórios com apenas 14 anos, ou Vítor Alves, que viveu anos com a família na fábrica, onde o pai era responsável pelo transbordo do carvão para alimentar os fornos. Só tenho pena de não ter ido a tempo de registar as memórias do meu avô, que lá trabalhou durante sete anos, lamentou o autor na sessão de apresentação, que contou com o presidente da União de Freguesias de Pataias e Martingança (UFPM), o coordenador da editora Hora de Ler e o geógrafo e professor, Paulo Grilo, a quem coube apresentar a obra.
Perante uma sala cheia, Paulo Grilo explicou que a escolha da Martingança-Gare para a localização da fábrica, fundada por sócios de Lisboa e do Porto, teve em conta a proximidade com a linha do Oeste, que permitia escoar produto, e a linha do Lena, que possibilitava transbordo do carvão para a linha do Oeste, mas também a proximidade com a Marinha Grande e Pataias, onde já havia empresários do vidro e mão de obra especializada.
O geógrafo lembrou a importância do vidro e da cal para a industrialização da região. Foi sobretudo o vidro que viabilizou a melhoria do nível de vida dos trabalhadores, que auferiam rendimentos mais elevados. Propiciou também a entrada das mulheres no mercado de trabalho fabril, a quem cabia a função de empalhadeiras, responsáveis por revestir os garrafões destinados ao vinho.
A indústria vidreira está ainda na origem da eletrificação de Pataias na década de 1940, depois da instalação de uma central termoelétrica na fábrica de vidro em Pataias-Gare.
Um trabalho notável, elogiou o editor, Carlos Fernandes. As palavras do presidente da UFPM foram para o autor, um excelente investigador. Valter Ribeiro garantiu que o executivo nunca quis ficar dissociado dos seus projetos e tem apoiado a publicação das obras que ajudam a conhecer a história daquele território. Os livros ficam para sempre, reforçou ainda o autarca.
Fonte: Pataias à Letra
